A "Crentefobia" e a Desconstrução da Fé Evangélica: Uma Perseguição Silenciosa de Alta Repercussão
O campo evangélico brasileiro, que hoje representa quase 30% da população, experimenta uma ascensão numérica (26,9% no Censo de 2022, com aumento de 5,2 pontos percentuais desde 2010), mas, paradoxalmente, é alvo de um intenso e sutil processo de deslegitimação. Este fenômeno, por vezes chamado de "crentefobia", não se manifesta primariamente em violência física, mas em uma perseguição silenciosa de alta repercussão que ecoa a intolerância estatal e cultural enfrentada pelos protestantes no final do século XIX e início do século XX, em um Brasil oficialmente católico.
A
Intolerância da Elite Cultural: O Estereótipo como Arma
O cerne da perseguição atual reside na intolerância das elites culturais e intelectuais progressistas. A elite brasileira, muitas vezes identificada por sua formação acadêmica e posições políticas de esquerda, nutre o que o filósofo Luiz Felipe Pondé descreve como "horror aos evangélicos". Segundo ele, a elite os vê como uma "turba de ignorantes" por conta de suas crenças, tratando a adesão a valores como a família como mera "superstição, opressiva e patriarcal".
Essa aversão se traduz em uma generalização
equivocada: a conduta isolada e pecaminosa de pastores ricos ou os
embates políticos recentes – que levaram muitos evangélicos a adotar uma
"retórica da perda" de valores diante de governos de esquerda – são
tomados como a definição de todo o movimento.
- A
Metonímia da Crítica: Os erros de lideranças neopentecostais
enriquecidas, as demonstrações de poder político ou os desvios
doutrinários não são criticados como falhas éticas individuais, mas sim
como a prova da patologia intrínseca de toda a fé evangélica. A
crítica legítima ao mau uso da Teologia da Prosperidade, por exemplo, vira
uma ferramenta para desqualificar o anseio por autonomia produtiva e
prosperidade individual da base evangélica mais pobre.
A
Desconstrução da Bíblia e dos Líderes: O Poder Sorrateiro
Essa visão estigmatizada é o prelúdio para um ataque mais profundo: a desconstrução da fé na Bíblia e em seus líderes.
- A
Fragilização da Autoridade Bíblica: Intelectuais progressistas e setores da mídia
frequentemente enquadram a visão evangélica conservadora da Bíblia como "fundamentalismo
religioso", um conceito que associa a crença na Verdade Absoluta
a posições rígidas, não-históricas e antidemocráticas. A Bíblia passa a
ser vista não como fonte de fé, mas como manual de opressão.
- O
Cavalo de Troia do Liberalismo Teológico: A contribuição de teólogos
evangélicos liberais de viés de esquerda serve, muitas vezes, como uma
ponte para essa desconstrução. Embora existam movimentos legítimos de
esquerda evangélica que buscam a justiça social inspirada na fé, a
corrente teológica liberal radical, ao priorizar narrativas ideológicas em
detrimento dos fundamentos bíblicos históricos, acaba por corroer a crença
na inerrância e autoridade das Escrituras, facilitando a aceitação de
pautas progressistas que entram em choque com o cristianismo tradicional.
- A
Atração pelas Armadilhas do Poder: Em um movimento de "aproximação"
que o antropólogo Juliano Spyer notou como tardio, lideranças de esquerda
buscam atrair a base evangélica. Contudo, essa atração é frequentemente
percebida como "sorrateira": a busca por votos e alianças
políticas corre o risco de subordinar a agenda da fé (com seus valores
morais e sua missão espiritual) aos interesses pragmáticos do poder
partidário, enfraquecendo a independência profética da Igreja.
Dados e
a Injustiça da Generalização
É crucial distinguir entre a perseguição sutil da elite cultural e a violência física que atinge outras
religiões. Dados do Disque 100 sobre intolerância religiosa mostram que as religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, são as mais vitimadas pela violência e violação no Brasil.
Embora os evangélicos também figurem nas denúncias
(sendo o terceiro grupo mais violado, com 88 casos de violação
registrados em 2024, segundo a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos), o foco
principal da "crentefobia" não é o ataque à vida, mas sim a desqualificação
cultural e social.
A injustiça reside exatamente na generalização:
o pecado isolado de um pastor (como desvio ético, corrupção ou apoio a projetos
autoritários) é usado para justificar o desprezo intelectual por milhões de
evangélicos que, na periferia e na base da sociedade, praticam o evangelho de
maneira autêntica, sustentando a solidariedade e a ajuda mútua, com a fé como
motor de sua ascensão social e moral.
A perseguição aos evangélicos no Brasil de hoje é a
"guerra cultural" travada pelo controle das narrativas e da
moralidade pública. A Igreja brasileira, ciente de seu crescimento e de sua
crescente influência política, precisa resistir à tentação de se moldar ao
poder temporal, seja ele conservador ou progressista, e reafirmar sua identidade:
subordinada unicamente aos valores do Evangelho.
A Lupa na Crítica: Teologia da
Prosperidade e a Atração da Esquerda Evangélica
Para aprofundar a análise da "perseguição silenciosa", é essencial examinar os dois pontos que mais geram atrito e generalizações por parte das elites culturais e intelectuais: a polarizadora Teologia da Prosperidade (TP) e a emergência da Esquerda Evangélica como contraponto crítico.
I. A Teologia da Prosperidade: O "Deus
Mercado" e o Desprezo Elitista
A Teologia da Prosperidade (TP), amplamente
difundida pelo neopentecostalismo (como a Igreja Universal do Reino de Deus), é
um campo minado na discussão. Ela prega que a bênção de Deus se manifesta em
riqueza material, saúde e sucesso como resultado direto da fé, das
confissões positivas e, crucialmente, do sacrifício do dízimo e ofertas.
A Visão Sociológica:
Empreendedorismo e Autonomia Popular
Para a base evangélica (majoritariamente de baixa
renda), a TP não é apenas uma "aberração capitalista" (como
frequentemente rotulada por críticos); ela funciona como um "liberalismo
popular". A TP:
·
Fomenta o Empreendedorismo: Pesquisas
sociológicas e econômicas (como estudos com dados do Censo) indicam que grupos
evangélicos neopentecostais contribuem positivamente para o nível de
empreendedorismo e formalização nos municípios. A TP incute a mentalidade
de que o sucesso individual, a autonomia e a vitória sobre a miséria são sinais
da bênção divina.
·
Oferece Identidade e Dignidade: O
filósofo Luiz Felipe Pondé argumenta que a igreja evangélica tem um papel
fundamental na construção da identidade de seus frequentadores, algo que
a sociedade brasileira historicamente negou à maior parte da população. A
promessa de prosperidade, ao se concretizar (em empregos, casa própria ou
estabilidade), é vista como a realização da fé.
O Preconceito Elitista
e a Generalização
A elite cultural, no entanto, rejeita a TP por
considerá-la a expressão religiosa do neoliberalismo e uma "fé
mercadológica" que explora a pobreza. A crítica, embora legítima em
relação aos desvios éticos (o enriquecimento ilícito de líderes e a simonia), se
transforma em um desprezo de classe:
·
Vício em vez de Virtude: O impulso de
ascensão social e a busca por autonomia financeira, que seriam vistos como
virtudes em outras esferas, são rotulados como vício ou alienação quando vêm da
fé evangélica popular.
·
Foco na Liderança: O foco na crítica à
ostentação de pastores e o uso político do "capital religioso" desvia
a atenção da ação social e da solidariedade que acontece na base das
igrejas, onde a TP é frequentemente acoplada a práticas de ajuda mútua.
Ao condenar a TP em bloco, a elite intelectual perde a oportunidade de entender a lógica social e a esperança que ela representa para milhões de brasileiros marginalizados, facilitando a generalização da "crentefobia".
II. A Esquerda Evangélica e a Crítica Fratricida
Dentro do próprio campo evangélico, a emergência de grupos progressistas (como a Frente de
Evangélicos pelo Estado Democrático de Direito) se opõe ao conservadorismo dominante, gerando uma tensão interna que a mídia e a esquerda secular exploram.
O Contraponto
Necessário
A Esquerda Evangélica cumpre um papel crucial ao:
·
Combater o Fundamentalismo Político:
Denunciam a mistura de fé e política que apoia discursos de ódio, misoginia e
LGBTfobia, reafirmando que "nem todo evangélico é conservador".
·
Reafirmar a Missão Social: Focam na
concretização do Reino de Deus como uma realidade de paz e justiça para
todos (combatendo a desigualdade, a pobreza, o racismo e a violência),
resgatando a herança social do Evangelho.
O Risco da Desconstrução
Teológica
Contudo, ao se aliar com a esquerda secular, esse
movimento corre o risco de ser instrumentalizado ou, pior, de ceder à "atração
sorrateira" do poder e da validação intelectual:
1.
A Teologia Liberal como Ponte: Alguns teólogos
evangélicos de esquerda, ao se posicionarem "contra as leituras rígidas
e descontextualizadas da Bíblia" (como o fundamentalismo), acabam
adotando um viés de Teologia Liberal que questiona ou relativiza a autoridade
literal das Escrituras em temas morais.
2.
Perda de Identidade: O foco excessivo na crítica
ao conservadorismo e a adesão irrestrita a pautas seculares podem levar à perda
de contato com a "fé histórica" e a pauta moral da maioria da
base evangélica (que não é politicamente extremista, mas é socialmente
conservadora).
Ao fazer isso, o debate se polariza: de um lado, o conservadorismo fundamentalista e político; do outro, uma Esquerda Evangélica que a maioria da base religiosa vê como excessivamente liberal e distante dos valores bíblicos tradicionais. Essa divisão interna intensifica a impressão externa de que o evangelicalismo está em crise de identidade, alimentando a narrativa de deslegitimação.
O Eco da História:
Evangélicos Sob Perseguição no Brasil Imperial e Republicano
A perseguição e o preconceito contra os evangélicos no Brasil não são um fenômeno exclusivo da era digital e da política polarizada. Pelo contrário, a situação atual de "perseguição silenciosa" ou "crentefobia" ecoa os conflitos e a intolerância enfrentados pelos protestantes nos séculos XIX e início do XX, quando o Catolicismo Apostólico Romano era a religião oficial do Estado.
I. O Status Quo do Brasil Império (1822–1889)
Com a Constituição de 1824, o Brasil estabeleceu o Catolicismo como Religião Oficial do Império,
mas prometeu uma "tolerância religiosa" restrita aos não-católicos. Essa tolerância, no entanto, veio com condições humilhantes e limitadoras:
·
Culto Doméstico e Proibido na Rua: As
outras confissões (principalmente protestantes, que começaram a chegar com as
missões e a imigração europeia) eram autorizadas a ter seu culto apenas em espaços
privados ou em edifícios que não tivessem a forma externa de templos
religiosos (como torres ou sinos). A manifestação pública da fé era proibida.
Exemplo: As
igrejas não podiam se parecer com igrejas.
·
A "Licença para Morrer": Um dos
maiores absurdos era a proibição de que não-católicos fossem sepultados em
cemitérios públicos (que eram controlados pela Igreja Católica). Os
protestantes precisavam ser enterrados em "cemitérios de
estrangeiros" ou nos fundos das suas propriedades, um problema que só
começou a ser resolvido com a criação de cemitérios civis.
Implicação: Mesmo na
morte, o cidadão não-católico não tinha plenos direitos.
·
Hostilidade e Violência: A chegada dos
missionários (colportores) e a distribuição da Bíblia (um princípio central do
protestantismo) eram vistas como uma invasão intolerável pela Igreja
Católica, que via seu monopólio ameaçado. Houve incidentes de violência,
panfletos difamatórios e ridicularização pública dos novos fiéis.
O caso Kalley: O missionário médico Dr. Robert Kalley foi perseguido, proibido de exercer a medicina no Brasil e teve suas reuniões em casa ameaçadas por multidões enfurecidas.
II. O Conflito na Primeira República (1889–1930)
A Proclamação da República e a consequente Separação entre Igreja e Estado em 1891 garantiram a
plena liberdade religiosa e o fim da religião oficial. No entanto, a mentalidade e o conflito persistiram:
·
Ameaça à "Unidade Nacional": A
Igreja Católica e setores da elite viam o crescimento protestante como uma ameaça
à identidade e à coesão cultural do Brasil, historicamente católico. Os
missionários eram frequentemente acusados de serem agentes de potências
estrangeiras (EUA e Inglaterra) e de trazerem valores destrutivos.
· Perseguição Velada: Apesar da liberdade legal, a perseguição continuou no nível social. Os protestantes eram marginalizados, ridicularizados e excluídos da vida pública em muitas regiões.
O Paralelo com a
Situação Atual
O que une o passado e o presente é a rejeição
da alteridade religiosa e a tentativa da elite de ditar a "fé
aceitável":
|
Característica |
Perseguição no Século XIX |
"Crentefobia" no Século XXI |
|
Poder
Dominante |
Igreja
Católica e Estado Imperial |
Elites
Culturais, Acadêmicas e Midiáticas |
|
Foco da
Crítica |
Proselitismo,
o uso da Bíblia, Sepultamento |
Teologia
da Prosperidade (TP), Voto, Moralidade |
|
Mecanismo
de Exclusão |
Restrição
Legal (culto privado, cemitério) |
Estereótipo
e Ridicularização Social e Midiática |
|
Medo da
Elite |
Perda da
Unidade Nacional Católica |
Perda da
Hegemonia Cultural/Progressista |
|
Ato de
Desprezo |
A negação
de direitos civis básicos. |
A
generalização da exploração da TP a toda base. |
Assim como no passado, a crítica atual muitas vezes não é dirigida à fé em si, mas ao projeto de poder e de ascensão social e política que um grupo (antes minoritário, hoje majoritário) da população brasileira constrói através da sua religião. A TP é a "desculpa" perfeita para a elite cultural desprezar a religião do povo pobre, assim como, no passado, o proselitismo era a desculpa para desprezar o imigrante.
A Construção do
Capital Político-Religioso Evangélico
O Capital Político-Religioso refere-se à capacidade de uma instituição religiosa (ou de seus líderes e fiéis) de converter seu poder espiritual e social em influência e votos na esfera política. Em essência, é a troca de apoio de massas (fiéis) por representação e defesa de interesses no Estado.
Esse capital foi construído através de um
processo que teve seu ponto de inflexão na década de 1980:
1. A Ruptura com o Isolacionismo ("O crente
não se mete em política")
Tradicionalmente, os evangélicos brasileiros
(especialmente os pentecostais e os grupos de missão) adotavam uma postura de isolacionismo
político ("O crente não se mete em política"). Essa
postura, influenciada por uma teologia de forte ênfase no fim dos tempos
(pré-milenarismo), via o mundo secular como irredimível e a política como algo
"sujo" e pecaminoso.
No entanto, a partir dos anos 1980, motivados
pelo crescimento demográfico e pelo avanço do Neopentecostalismo, essa visão
mudou.
2. A Assembleia Nacional Constituinte de
1986/1988: O Despertar Político
O marco inicial da mobilização foi a eleição para
a Assembleia Nacional Constituinte (ANC) em 1986. A ANC foi vista pelas
lideranças evangélicas como uma ameaça e uma oportunidade:
·
A Ameaça: Havia o receio de que o novo
texto constitucional pudesse trazer leis desfavoráveis, como a restrição à
mídia e à radiodifusão (essenciais para o proselitismo neopentecostal) ou a
concessão de privilégios à Igreja Católica.
·
A Oportunidade: A necessidade de defender
os interesses da fé no novo ordenamento jurídico catalisou a ação. Pela
primeira vez em larga escala, as igrejas (especialmente as grandes
pentecostais) adotaram uma estratégia corporativa e passaram a lançar e
apoiar ativamente seus próprios candidatos, chamados de "candidatos
oficiais".
Resultado: 32 deputados evangélicos foram
eleitos para a Constituinte, formando a primeira "Bancada Evangélica"
formal, cujo primeiro objetivo foi influenciar o texto da Constituição de 1988.
3. As Bases Teológicas e Estratégicas para o
Capital
Dois elementos-chave do Neopentecostalismo (a
"Terceira Onda" evangélica no Brasil, a partir dos anos 70) foram
cruciais para a consolidação desse capital:
|
Elemento |
Descrição |
Impacto no Capital Político |
|
Teologia
da Prosperidade (TP) |
Ensina que
o fiel tem o direito à bênção material e que o sucesso financeiro/terreno é
prova da graça divina. |
Direciona
o foco do "céu" (isolacionismo) para o "aqui e agora",
incentivando o ativismo para melhorar a vida material e moral. |
|
Teologia
da Batalha Espiritual |
Enxerga o
mundo em constante luta entre Deus e o Diabo, sendo os problemas sociais,
políticos e morais atribuídos a forças demoníacas. |
Politiza
o conflito e define adversários concretos (aborto, pautas LGBT,
corrupção, "esquerda"), incentivando os fiéis a combaterem o
"mal" através do voto. |
|
Uso da
Mídia |
As igrejas
neopentecostais investem maciçamente em rádio, TV e, mais recentemente,
internet, construindo uma forte identidade coletiva. |
Garante um
canal de mobilização e doutrinação constante e eficiente, permitindo
que as lideranças orientem o voto e a pauta de forma direta e massiva. |
Ao
longo das décadas seguintes (1990 e 2000), o crescimento demográfico evangélico
(principalmente entre os mais pobres) se traduziu diretamente em maior poder de
voto, consolidando o "Capital Político-Religioso" como
uma força incontornável no Legislativo e, mais tarde, no Executivo, culminando
no papel de base de apoio fundamental nos governos de direita recentes.
1. O Eixo Principal: A Agenda Moral e de
Costumes (The "Values Issues")
Este é o cerne da atuação da bancada e o que mais
a unifica e a diferencia no cenário político brasileiro. A prioridade é a
defesa de uma ordem moral e social conservadora e a luta contra o que
consideram uma "ameaça" aos valores tradicionais cristãos.
|
Pauta |
Objetivo Principal |
|
Combate
ao Aborto |
Impedir
qualquer avanço na descriminalização do aborto no Brasil, defendendo a
"vida desde a concepção". |
|
Família
Tradicional |
Barrar a
legislação que reconheça uniões homoafetivas ou qualquer pauta de direitos
LGBT. Defesa da família como instituição heterossexual e patriarcal. |
|
Questões
de Gênero |
Atuar
contra a chamada "ideologia de gênero" nas escolas, nos planos
educacionais e nas políticas públicas. |
|
Liberdade
Religiosa |
Propor e
defender leis que garantam o funcionamento e a expansão das igrejas e a
manifestação pública da fé. |
Contexto: Os evangélicos entraram bem
posicionados na política quando as "values issues" (questões
de valor e moral) surgiram no debate público brasileiro. Seu sucesso inicial
consistiu em barrar projetos considerados ofensivos à moralidade sexual e
religiosa, usando o voto como uma ferramenta de "batalha
espiritual" para combater o que veem como forças seculares
destrutivas.
2. O Eixo Corporativo e Institucional
Este eixo envolve a defesa dos interesses
práticos e organizacionais das próprias instituições religiosas (as igrejas).·
Defesa Patrimonial e Fiscal: Lutar por
garantias constitucionais e imunidades tributárias para as igrejas.
·
Regulamentação de Mídia: Influenciar a
legislação sobre concessões de rádio e TV, essenciais para as igrejas
neopentecostais, que dependem da comunicação de massa para seu proselitismo.
·
Nomeações Estratégicas: Pressionar pela
nomeação de indivíduos alinhados com seus valores para cargos-chave no
Executivo (Ministérios, Secretarias) e no Judiciário (Tribunais Superiores).
3. A Estratégia de Ação Política
A conversão do capital religioso em poder
legislativo se dá através de um modelo de representação corporativa com
táticas específicas:
A. A Tradução Laica
A bancada se preocupa em traduzir seus argumentos
religiosos em argumentos laicos ao promover seus interesses no
Congresso. Por exemplo, a oposição ao aborto é frequentemente apresentada como
uma questão de "defesa da vida" (princípio constitucional) e não
apenas como um mandamento bíblico.B. A Ação Coletiva (A Bancada como Bloco)
A FPE funciona como um bloco suprapartidário de
negociação e pressão, conseguindo se articular em momentos-chave da votação
para barrar ou aprovar projetos de seu interesse. Essa união é facilitada pelas
pautas morais, que tendem a ser mais consensuais entre os diferentes grupos
evangélicos.
C. Apoio e Negociação com o Executivo
Desde a redemocratização, mas de forma mais
proeminente nos anos 2000, a bancada se tornou uma base de apoio essencial para
diversos governos (tanto de esquerda quanto de direita, embora o
conservadorismo tenha se tornado predominante). Em troca de votos e governabilidade,
o Executivo cede espaço e influência, garantindo a defesa dos interesses da
bancada.
Conclusão: O Desafio da Laicidade na Guerra
Cultural
Em suma, a força política evangélica no Brasil é
resultado da união de um grande crescimento demográfico (que se traduz
em votos) com uma estratégia política corporativa e conservadora, focada
em garantir sua presença no ordenamento jurídico e defender um conjunto
específico de valores morais na esfera pública.A perseguição silenciosa contra evangélicos é,
portanto, um subproduto complexo da guerra cultural brasileira: elites
intelectuais usam os maus exemplos e a Teologia da Prosperidade
como metonímia para condenar um movimento social vasto e heterogêneo.
Essa "crentefobia" repete, em nova
roupagem, os conflitos do início da República, quando o protestantismo era
visto como uma ameaça à unidade nacional. Hoje, o evangélico é visto como uma ameaça
à "unidade progressista" ou ao projeto cultural da elite,
exigindo uma resposta que não caia nem no fundamentalismo político nem na
desconstrução teológica liberal.




.jpg)


.jpg)
.,,,,,,,,,,,,,,,1..1...1ln....1..jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário