domingo, 2 de novembro de 2025

A DESCONSTRUÇÃO DA FÉ EVANGÉLICA - FIM DA FÉ?

 A "Crentefobia" e a Desconstrução da Fé Evangélica: Uma Perseguição Silenciosa de Alta Repercussão

O campo evangélico brasileiro, que hoje representa quase 30% da população, experimenta uma ascensão numérica (26,9% no Censo de 2022, com aumento de 5,2 pontos percentuais desde 2010), mas, paradoxalmente, é alvo de um intenso e sutil processo de deslegitimação. Este fenômeno, por vezes chamado de "crentefobia", não se manifesta primariamente em violência física, mas em uma perseguição silenciosa de alta repercussão que ecoa a intolerância estatal e cultural enfrentada pelos protestantes no final do século XIX e início do século XX, em um Brasil oficialmente católico.

A Intolerância da Elite Cultural: O Estereótipo como Arma

O cerne da perseguição atual reside na intolerância das elites culturais e intelectuais progressistas. A elite brasileira, muitas vezes identificada por sua formação acadêmica e posições políticas de esquerda, nutre o que o filósofo Luiz Felipe Pondé descreve como "horror aos evangélicos". Segundo ele, a elite os vê como uma "turba de ignorantes" por conta de suas crenças, tratando a adesão a valores como a família como mera "superstição, opressiva e patriarcal".

Essa aversão se traduz em uma generalização equivocada: a conduta isolada e pecaminosa de pastores ricos ou os embates políticos recentes – que levaram muitos evangélicos a adotar uma "retórica da perda" de valores diante de governos de esquerda – são tomados como a definição de todo o movimento.

  • A Metonímia da Crítica: Os erros de lideranças neopentecostais enriquecidas, as demonstrações de poder político ou os desvios doutrinários não são criticados como falhas éticas individuais, mas sim como a prova da patologia intrínseca de toda a fé evangélica. A crítica legítima ao mau uso da Teologia da Prosperidade, por exemplo, vira uma ferramenta para desqualificar o anseio por autonomia produtiva e prosperidade individual da base evangélica mais pobre.

A Desconstrução da Bíblia e dos Líderes: O Poder Sorrateiro

Essa visão estigmatizada é o prelúdio para um ataque mais profundo: a desconstrução da fé na Bíblia e em seus líderes.

  1. A Fragilização da Autoridade Bíblica: Intelectuais progressistas e setores da mídia frequentemente enquadram a visão evangélica conservadora da Bíblia como "fundamentalismo religioso", um conceito que associa a crença na Verdade Absoluta a posições rígidas, não-históricas e antidemocráticas. A Bíblia passa a ser vista não como fonte de fé, mas como manual de opressão.
  2. O Cavalo de Troia do Liberalismo Teológico: A contribuição de teólogos evangélicos liberais de viés de esquerda serve, muitas vezes, como uma ponte para essa desconstrução. Embora existam movimentos legítimos de esquerda evangélica que buscam a justiça social inspirada na fé, a corrente teológica liberal radical, ao priorizar narrativas ideológicas em detrimento dos fundamentos bíblicos históricos, acaba por corroer a crença na inerrância e autoridade das Escrituras, facilitando a aceitação de pautas progressistas que entram em choque com o cristianismo tradicional.
  3. A Atração pelas Armadilhas do Poder: Em um movimento de "aproximação" que o antropólogo Juliano Spyer notou como tardio, lideranças de esquerda buscam atrair a base evangélica. Contudo, essa atração é frequentemente percebida como "sorrateira": a busca por votos e alianças políticas corre o risco de subordinar a agenda da fé (com seus valores morais e sua missão espiritual) aos interesses pragmáticos do poder partidário, enfraquecendo a independência profética da Igreja.

Dados e a Injustiça da Generalização

É crucial distinguir entre a perseguição sutil da elite cultural e a violência física que atinge outras


religiões. Dados do Disque 100 sobre intolerância religiosa mostram que as religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, são as mais vitimadas pela violência e violação no Brasil.

Embora os evangélicos também figurem nas denúncias (sendo o terceiro grupo mais violado, com 88 casos de violação registrados em 2024, segundo a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos), o foco principal da "crentefobia" não é o ataque à vida, mas sim a desqualificação cultural e social.

A injustiça reside exatamente na generalização: o pecado isolado de um pastor (como desvio ético, corrupção ou apoio a projetos autoritários) é usado para justificar o desprezo intelectual por milhões de evangélicos que, na periferia e na base da sociedade, praticam o evangelho de maneira autêntica, sustentando a solidariedade e a ajuda mútua, com a fé como motor de sua ascensão social e moral.

A perseguição aos evangélicos no Brasil de hoje é a "guerra cultural" travada pelo controle das narrativas e da moralidade pública. A Igreja brasileira, ciente de seu crescimento e de sua crescente influência política, precisa resistir à tentação de se moldar ao poder temporal, seja ele conservador ou progressista, e reafirmar sua identidade: subordinada unicamente aos valores do Evangelho.

 A Lupa na Crítica: Teologia da Prosperidade e a Atração da Esquerda Evangélica

Para aprofundar a análise da "perseguição silenciosa", é essencial examinar os dois pontos que mais geram atrito e generalizações por parte das elites culturais e intelectuais: a polarizadora Teologia da Prosperidade (TP) e a emergência da Esquerda Evangélica como contraponto crítico.

I. A Teologia da Prosperidade: O "Deus Mercado" e o Desprezo Elitista

A Teologia da Prosperidade (TP), amplamente difundida pelo neopentecostalismo (como a Igreja Universal do Reino de Deus), é um campo minado na discussão. Ela prega que a bênção de Deus se manifesta em riqueza material, saúde e sucesso como resultado direto da fé, das confissões positivas e, crucialmente, do sacrifício do dízimo e ofertas.

A Visão Sociológica: Empreendedorismo e Autonomia Popular

Para a base evangélica (majoritariamente de baixa renda), a TP não é apenas uma "aberração capitalista" (como frequentemente rotulada por críticos); ela funciona como um "liberalismo popular". A TP:

·        Fomenta o Empreendedorismo: Pesquisas sociológicas e econômicas (como estudos com dados do Censo) indicam que grupos evangélicos neopentecostais contribuem positivamente para o nível de empreendedorismo e formalização nos municípios. A TP incute a mentalidade de que o sucesso individual, a autonomia e a vitória sobre a miséria são sinais da bênção divina.

·        Oferece Identidade e Dignidade: O filósofo Luiz Felipe Pondé argumenta que a igreja evangélica tem um papel fundamental na construção da identidade de seus frequentadores, algo que a sociedade brasileira historicamente negou à maior parte da população. A promessa de prosperidade, ao se concretizar (em empregos, casa própria ou estabilidade), é vista como a realização da fé.

 O Preconceito Elitista e a Generalização

A elite cultural, no entanto, rejeita a TP por considerá-la a expressão religiosa do neoliberalismo e uma "fé mercadológica" que explora a pobreza. A crítica, embora legítima em relação aos desvios éticos (o enriquecimento ilícito de líderes e a simonia), se transforma em um desprezo de classe:

·        Vício em vez de Virtude: O impulso de ascensão social e a busca por autonomia financeira, que seriam vistos como virtudes em outras esferas, são rotulados como vício ou alienação quando vêm da fé evangélica popular.

·        Foco na Liderança: O foco na crítica à ostentação de pastores e o uso político do "capital religioso" desvia a atenção da ação social e da solidariedade que acontece na base das igrejas, onde a TP é frequentemente acoplada a práticas de ajuda mútua.

Ao condenar a TP em bloco, a elite intelectual perde a oportunidade de entender a lógica social e a esperança que ela representa para milhões de brasileiros marginalizados, facilitando a generalização da "crentefobia".

II. A Esquerda Evangélica e a Crítica Fratricida

Dentro do próprio campo evangélico, a emergência de grupos progressistas (como a Frente de


Evangélicos pelo Estado Democrático de Direito) se opõe ao conservadorismo dominante, gerando uma tensão interna que a mídia e a esquerda secular exploram.

O Contraponto Necessário

A Esquerda Evangélica cumpre um papel crucial ao:

·        Combater o Fundamentalismo Político: Denunciam a mistura de fé e política que apoia discursos de ódio, misoginia e LGBTfobia, reafirmando que "nem todo evangélico é conservador".

·        Reafirmar a Missão Social: Focam na concretização do Reino de Deus como uma realidade de paz e justiça para todos (combatendo a desigualdade, a pobreza, o racismo e a violência), resgatando a herança social do Evangelho.

 O Risco da Desconstrução Teológica

Contudo, ao se aliar com a esquerda secular, esse movimento corre o risco de ser instrumentalizado ou, pior, de ceder à "atração sorrateira" do poder e da validação intelectual:

1.     A Teologia Liberal como Ponte: Alguns teólogos evangélicos de esquerda, ao se posicionarem "contra as leituras rígidas e descontextualizadas da Bíblia" (como o fundamentalismo), acabam adotando um viés de Teologia Liberal que questiona ou relativiza a autoridade literal das Escrituras em temas morais.

2.     Perda de Identidade: O foco excessivo na crítica ao conservadorismo e a adesão irrestrita a pautas seculares podem levar à perda de contato com a "fé histórica" e a pauta moral da maioria da base evangélica (que não é politicamente extremista, mas é socialmente conservadora).

Ao fazer isso, o debate se polariza: de um lado, o conservadorismo fundamentalista e político; do outro, uma Esquerda Evangélica que a maioria da base religiosa vê como excessivamente liberal e distante dos valores bíblicos tradicionais. Essa divisão interna intensifica a impressão externa de que o evangelicalismo está em crise de identidade, alimentando a narrativa de deslegitimação.

 O Eco da História: Evangélicos Sob Perseguição no Brasil Imperial e Republicano

A perseguição e o preconceito contra os evangélicos no Brasil não são um fenômeno exclusivo da era digital e da política polarizada. Pelo contrário, a situação atual de "perseguição silenciosa" ou "crentefobia" ecoa os conflitos e a intolerância enfrentados pelos protestantes nos séculos XIX e início do XX, quando o Catolicismo Apostólico Romano era a religião oficial do Estado.

I. O Status Quo do Brasil Império (1822–1889)

Com a Constituição de 1824, o Brasil estabeleceu o Catolicismo como Religião Oficial do Império,


mas prometeu uma "tolerância religiosa" restrita aos não-católicos. Essa tolerância, no entanto, veio com condições humilhantes e limitadoras:

·        Culto Doméstico e Proibido na Rua: As outras confissões (principalmente protestantes, que começaram a chegar com as missões e a imigração europeia) eram autorizadas a ter seu culto apenas em espaços privados ou em edifícios que não tivessem a forma externa de templos religiosos (como torres ou sinos). A manifestação pública da fé era proibida.

Exemplo: As igrejas não podiam se parecer com igrejas.

·        A "Licença para Morrer": Um dos maiores absurdos era a proibição de que não-católicos fossem sepultados em cemitérios públicos (que eram controlados pela Igreja Católica). Os protestantes precisavam ser enterrados em "cemitérios de estrangeiros" ou nos fundos das suas propriedades, um problema que só começou a ser resolvido com a criação de cemitérios civis.

Implicação: Mesmo na morte, o cidadão não-católico não tinha plenos direitos.

·        Hostilidade e Violência: A chegada dos missionários (colportores) e a distribuição da Bíblia (um princípio central do protestantismo) eram vistas como uma invasão intolerável pela Igreja Católica, que via seu monopólio ameaçado. Houve incidentes de violência, panfletos difamatórios e ridicularização pública dos novos fiéis.

O caso Kalley: O missionário médico Dr. Robert Kalley foi perseguido, proibido de exercer a medicina no Brasil e teve suas reuniões em casa ameaçadas por multidões enfurecidas.

II. O Conflito na Primeira República (1889–1930)

A Proclamação da República e a consequente Separação entre Igreja e Estado em 1891 garantiram a


plena liberdade religiosa e o fim da religião oficial. No entanto, a mentalidade e o conflito persistiram:

·        Ameaça à "Unidade Nacional": A Igreja Católica e setores da elite viam o crescimento protestante como uma ameaça à identidade e à coesão cultural do Brasil, historicamente católico. Os missionários eram frequentemente acusados de serem agentes de potências estrangeiras (EUA e Inglaterra) e de trazerem valores destrutivos.

·        Perseguição Velada: Apesar da liberdade legal, a perseguição continuou no nível social. Os protestantes eram marginalizados, ridicularizados e excluídos da vida pública em muitas regiões.

O Paralelo com a Situação Atual

O que une o passado e o presente é a rejeição da alteridade religiosa e a tentativa da elite de ditar a "fé aceitável":

Característica

Perseguição no Século XIX

"Crentefobia" no Século XXI

Poder Dominante

Igreja Católica e Estado Imperial

Elites Culturais, Acadêmicas e Midiáticas

Foco da Crítica

Proselitismo, o uso da Bíblia, Sepultamento

Teologia da Prosperidade (TP), Voto, Moralidade

Mecanismo de Exclusão

Restrição Legal (culto privado, cemitério)

Estereótipo e Ridicularização Social e Midiática

Medo da Elite

Perda da Unidade Nacional Católica

Perda da Hegemonia Cultural/Progressista

Ato de Desprezo

A negação de direitos civis básicos.

A generalização da exploração da TP a toda base.

Assim como no passado, a crítica atual muitas vezes não é dirigida à fé em si, mas ao projeto de poder e de ascensão social e política que um grupo (antes minoritário, hoje majoritário) da população brasileira constrói através da sua religião. A TP é a "desculpa" perfeita para a elite cultural desprezar a religião do povo pobre, assim como, no passado, o proselitismo era a desculpa para desprezar o imigrante.

 A Construção do Capital Político-Religioso Evangélico


O Capital Político-Religioso refere-se à capacidade de uma instituição religiosa (ou de seus líderes e fiéis) de converter seu poder espiritual e social em influência e votos na esfera política. Em essência, é a troca de apoio de massas (fiéis) por representação e defesa de interesses no Estado.

Esse capital foi construído através de um processo que teve seu ponto de inflexão na década de 1980:

1. A Ruptura com o Isolacionismo ("O crente não se mete em política")

Tradicionalmente, os evangélicos brasileiros (especialmente os pentecostais e os grupos de missão) adotavam uma postura de isolacionismo político ("O crente não se mete em política"). Essa postura, influenciada por uma teologia de forte ênfase no fim dos tempos (pré-milenarismo), via o mundo secular como irredimível e a política como algo "sujo" e pecaminoso.

No entanto, a partir dos anos 1980, motivados pelo crescimento demográfico e pelo avanço do Neopentecostalismo, essa visão mudou.

2. A Assembleia Nacional Constituinte de 1986/1988: O Despertar Político

O marco inicial da mobilização foi a eleição para a Assembleia Nacional Constituinte (ANC) em 1986. A ANC foi vista pelas lideranças evangélicas como uma ameaça e uma oportunidade:

·        A Ameaça: Havia o receio de que o novo texto constitucional pudesse trazer leis desfavoráveis, como a restrição à mídia e à radiodifusão (essenciais para o proselitismo neopentecostal) ou a concessão de privilégios à Igreja Católica.

·        A Oportunidade: A necessidade de defender os interesses da fé no novo ordenamento jurídico catalisou a ação. Pela primeira vez em larga escala, as igrejas (especialmente as grandes pentecostais) adotaram uma estratégia corporativa e passaram a lançar e apoiar ativamente seus próprios candidatos, chamados de "candidatos oficiais".

Resultado: 32 deputados evangélicos foram eleitos para a Constituinte, formando a primeira "Bancada Evangélica" formal, cujo primeiro objetivo foi influenciar o texto da Constituição de 1988.

3. As Bases Teológicas e Estratégicas para o Capital

Dois elementos-chave do Neopentecostalismo (a "Terceira Onda" evangélica no Brasil, a partir dos anos 70) foram cruciais para a consolidação desse capital:

Elemento

Descrição

Impacto no Capital Político

Teologia da Prosperidade (TP)

Ensina que o fiel tem o direito à bênção material e que o sucesso financeiro/terreno é prova da graça divina.

Direciona o foco do "céu" (isolacionismo) para o "aqui e agora", incentivando o ativismo para melhorar a vida material e moral.

Teologia da Batalha Espiritual

Enxerga o mundo em constante luta entre Deus e o Diabo, sendo os problemas sociais, políticos e morais atribuídos a forças demoníacas.

Politiza o conflito e define adversários concretos (aborto, pautas LGBT, corrupção, "esquerda"), incentivando os fiéis a combaterem o "mal" através do voto.

Uso da Mídia

As igrejas neopentecostais investem maciçamente em rádio, TV e, mais recentemente, internet, construindo uma forte identidade coletiva.

Garante um canal de mobilização e doutrinação constante e eficiente, permitindo que as lideranças orientem o voto e a pauta de forma direta e massiva.

Ao longo das décadas seguintes (1990 e 2000), o crescimento demográfico evangélico (principalmente entre os mais pobres) se traduziu diretamente em maior poder de voto, consolidando o "Capital Político-Religioso" como uma força incontornável no Legislativo e, mais tarde, no Executivo, culminando no papel de base de apoio fundamental nos governos de direita recentes.

1. O Eixo Principal: A Agenda Moral e de Costumes (The "Values Issues")

Este é o cerne da atuação da bancada e o que mais a unifica e a diferencia no cenário político brasileiro. A prioridade é a defesa de uma ordem moral e social conservadora e a luta contra o que consideram uma "ameaça" aos valores tradicionais cristãos.

Pauta

Objetivo Principal

Combate ao Aborto

Impedir qualquer avanço na descriminalização do aborto no Brasil, defendendo a "vida desde a concepção".

Família Tradicional

Barrar a legislação que reconheça uniões homoafetivas ou qualquer pauta de direitos LGBT. Defesa da família como instituição heterossexual e patriarcal.

Questões de Gênero

Atuar contra a chamada "ideologia de gênero" nas escolas, nos planos educacionais e nas políticas públicas.

Liberdade Religiosa

Propor e defender leis que garantam o funcionamento e a expansão das igrejas e a manifestação pública da fé.

Contexto: Os evangélicos entraram bem posicionados na política quando as "values issues" (questões de valor e moral) surgiram no debate público brasileiro. Seu sucesso inicial consistiu em barrar projetos considerados ofensivos à moralidade sexual e religiosa, usando o voto como uma ferramenta de "batalha espiritual" para combater o que veem como forças seculares destrutivas.

2. O Eixo Corporativo e Institucional

Este eixo envolve a defesa dos interesses práticos e organizacionais das próprias instituições religiosas (as igrejas).

·        Defesa Patrimonial e Fiscal: Lutar por garantias constitucionais e imunidades tributárias para as igrejas.

·        Regulamentação de Mídia: Influenciar a legislação sobre concessões de rádio e TV, essenciais para as igrejas neopentecostais, que dependem da comunicação de massa para seu proselitismo.

·        Nomeações Estratégicas: Pressionar pela nomeação de indivíduos alinhados com seus valores para cargos-chave no Executivo (Ministérios, Secretarias) e no Judiciário (Tribunais Superiores).

3. A Estratégia de Ação Política

A conversão do capital religioso em poder legislativo se dá através de um modelo de representação corporativa com táticas específicas:

A. A Tradução Laica

A bancada se preocupa em traduzir seus argumentos religiosos em argumentos laicos ao promover seus interesses no Congresso. Por exemplo, a oposição ao aborto é frequentemente apresentada como uma questão de "defesa da vida" (princípio constitucional) e não apenas como um mandamento bíblico.

B. A Ação Coletiva (A Bancada como Bloco)

A FPE funciona como um bloco suprapartidário de negociação e pressão, conseguindo se articular em momentos-chave da votação para barrar ou aprovar projetos de seu interesse. Essa união é facilitada pelas pautas morais, que tendem a ser mais consensuais entre os diferentes grupos evangélicos.

C. Apoio e Negociação com o Executivo

Desde a redemocratização, mas de forma mais proeminente nos anos 2000, a bancada se tornou uma base de apoio essencial para diversos governos (tanto de esquerda quanto de direita, embora o conservadorismo tenha se tornado predominante). Em troca de votos e governabilidade, o Executivo cede espaço e influência, garantindo a defesa dos interesses da bancada.

 

Conclusão: O Desafio da Laicidade na Guerra Cultural

Em suma, a força política evangélica no Brasil é resultado da união de um grande crescimento demográfico (que se traduz em votos) com uma estratégia política corporativa e conservadora, focada em garantir sua presença no ordenamento jurídico e defender um conjunto específico de valores morais na esfera pública.

A perseguição silenciosa contra evangélicos é, portanto, um subproduto complexo da guerra cultural brasileira: elites intelectuais usam os maus exemplos e a Teologia da Prosperidade como metonímia para condenar um movimento social vasto e heterogêneo.

Essa "crentefobia" repete, em nova roupagem, os conflitos do início da República, quando o protestantismo era visto como uma ameaça à unidade nacional. Hoje, o evangélico é visto como uma ameaça à "unidade progressista" ou ao projeto cultural da elite, exigindo uma resposta que não caia nem no fundamentalismo político nem na desconstrução teológica liberal.



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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